Biólogo goiano usa ilustração científica para aproximar brasileiros da fauna nativa
O biólogo Ricardo Ribeiro, graduado pela UFG e mestre em ecologia pela UFPA, utiliza a ilustração científica como ferramenta de educação ambiental e divulgação da fauna brasileira — com foco especial nas aves do Cerrado. Para ele, retratar espécies com precisão morfológica é uma forma de despertar o afeto necessário para que as pessoas se importem com a conservação da natureza.

- Ricardo Ribeiro é biólogo formado pela UFG e mestre em ecologia pela UFPA que atua como ilustrador científico da fauna brasileira.
- O interesse por animais começou na infância, reforçado por documentários de natureza e experiências em campo com a família no Cerrado e no Araguaia.
- A ilustração científica permite destacar características morfológicas das espécies com precisão pedagógica, servindo tanto à ciência quanto ao público geral.
- O Brasil abriga mais de 1.971 espécies de aves catalogadas, segundo o Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO), mas grande parte da fauna permanece desconhecida pela população.
- A área de ilustração científica enfrenta desafios de reconhecimento acadêmico, financiamento e mercado de trabalho no Brasil.
Da infância ao laboratório criativo
Aos cinco anos, Ricardo Ribeiro já demonstrava interesse fora do comum pelo mundo natural. Em vez de desenhos animados, eram os programas de natureza que prendiam sua atenção — entre eles o Globo Repórter, exibido pela TV Globo. As férias na fazenda do avô e as pescarias com o pai às margens do rio Araguaia completavam esse contato precoce com a fauna.
"Eu ficava maravilhado ao ver reportagens e documentários de natureza do Globo Repórter, além de observar os animais durante as férias de verão na fazenda do meu avô ou nas férias de inverno, quando pescava com meu pai na região do rio Araguaia", relembra Ricardo.
Baseando-se nas imagens dos programas de TV, nas fotografias de jornais e nas ilustrações estampadas nas caixas de lápis de cor, o menino foi construindo uma linguagem particular de se relacionar com a vida selvagem — sem saber, estava fundindo arte e biologia muito antes de qualquer formação acadêmica.
Graduação afasta e depois reconecta o biólogo ao desenho
A entrada no curso de Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Goiás (UFG) trouxe demandas que foram empurrando os desenhos para segundo plano. O foco migrou para laboratórios, saídas de campo e literatura científica. A ilustração ficou em espera — mas não por muito tempo.
Foi no segundo ano da graduação que Ricardo reencontrou o desenho de forma decisiva. Ele ilustrou um periquito-de-encontro-amarelo (Brotogeris chiriri) e presenteou um casal de amigos que vivia no interior de Goiás. A reação positiva ao receber aquela imagem de uma espécie comum do Cerrado retratada com precisão foi o ponto de virada.
Aquele presente revelou algo que os manuais acadêmicos raramente ensinam: imagens podem aproximar pessoas da natureza de um modo que dados taxonômicos e estatísticas, sozinhos, dificilmente alcançam.
O que é ilustração científica — e por que ela importa
A ilustração naturalista tem tradição secular. Foi por meio dela que naturalistas que percorreram o Brasil no século XIX documentaram espécies antes mesmo de a fotografia existir. Ricardo dialoga com essa tradição ao adaptá-la ao contexto contemporâneo da divulgação científica.
Diferente de uma fotografia, a ilustração científica permite ao artista destacar exatamente os elementos que identificam uma espécie: padrões de plumagem, proporções corporais, texturas de escamas. É uma síntese visual que serve tanto ao pesquisador quanto ao público leigo.
Para Ricardo, cada ilustração carrega uma dupla função: retratar com fidelidade as características morfológicas do animal e despertar no observador a curiosidade que pode levá-lo a se importar com a conservação daquela espécie.
Fauna do Cerrado como tema central
O Brasil concentra uma das maiores biodiversidades do planeta. Segundo o Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO), o país abriga mais de 1.971 espécies de aves catalogadas, além de uma riqueza extraordinária de mamíferos, répteis, anfíbios e peixes que permanecem desconhecidos para grande parte da população.
É nesse cenário que o trabalho de Ricardo se insere. Ao eleger espécies do Cerrado — bioma onde cresceu — como protagonistas de suas ilustrações, ele contribui para um processo de visibilidade: dar rosto e personalidade a animais que, para a maioria das pessoas, existem apenas como entradas em listas de espécies ameaçadas.
A educação ambiental eficaz raramente se apoia apenas em dados sobre desmatamento. Ela costuma começar por uma imagem que desperta a pergunta mais simples: "Que bicho é esse?"
Desafios do campo no Brasil
A ilustração científica enfrenta obstáculos concretos no Brasil. O reconhecimento acadêmico da área ainda é limitado — ela ocupa uma zona de fronteira entre ciência e arte que nem sempre encontra espaço formal nas grades universitárias nem financiamento consistente em editais de pesquisa. O mercado de trabalho para ilustradores naturalistas também é restrito, o que leva muitos profissionais a conciliar a atividade com outras funções dentro da biologia ou da educação.
Esse contexto torna relevante a atuação de profissionais que, como Ricardo, mantêm a prática mesmo fora de estruturas institucionalizadas, muitas vezes recorrendo a redes sociais para alcançar públicos que jamais acessariam publicações científicas especializadas.
Arte, ciência e conservação
A trajetória de Ricardo Ribeiro — do menino encantado com documentários de natureza ao biólogo-ilustrador que presenteia amigos com retratos de periquitos nativos — é a história de alguém que encontrou na combinação entre ciência e arte uma forma própria de atuação profissional.
Em um país com tamanha riqueza natural e tantos desafios de conservação, a ilustração científica cumpre uma função de mediação: torna o conhecimento biológico acessível e, em alguns casos, emocionalmente significativo para quem o recebe.
Para Ricardo, o encantamento com a natureza pode começar com algo tão simples quanto uma criança diante de uma imagem de animal — e esse encantamento, quando cultivado, pode orientar escolhas ao longo de uma vida inteira.




